A (nem tão polêmica assim) arte da tatuagem

A tatuagem é uma arte tão antiga quanto a própria humanidade, e isso é um fato já comprovado. Ao que parece, fazer uma tatuagem deixou de ter um teor polêmico e gradativamente passou a ser visto como algo artístico e de valor sentimental, sendo massivamente popularizado mundialmente

 Um estudo do Sebrae identificou um crescimento de 24,1% no número de estúdios regularizados, sendo esse índice apurado entre janeiro de 2016 e de 2017.

O tatuador paranaense Murilo Calixto conta que parou o curso de artes visuais, e incentivado por sua mãe fez um curso com um renomado tatuador, pioneiro na área, na região de Maringá. Hoje ele atende um número grande de pessoas diariamente em seu estúdio na cidade de Jandaia do Sul, e acredita que seu maior público seja entre 18 e 30 anos de idade. Segundo ele o conceito da “body arte” já é muito bem aceito e será cada vez mais. “Daqui há 20 anos uma grande parte da população terá ao menos uma tatuagem” conta. Diz ainda que algo que o incomoda um pouco é o fato de algumas pessoas questionarem como será quando ele for mais velho, por ter tantas tatuagens, muitas inclusive feitas por ele mesmo. “Incomoda mais aos outros do que à mim, não terei problemas em me tornar uma pessoa mais velha e tatuada”.

Murilo Calixto/ Reprodução instagram

Conversamos com alguns profissionais de diversas áreas para entender o que eles pensam à respeito disso, porque escolheram fazer suas tatuagens, e fatos curiosos relacionados às suas escolhas:

“Arte sempre foi minha vida e paixão, e a tatuagem faz parte desse universo de imagens então, passar algumas ideias da tela para a pele foi um processo quase que natural. Sempre que falava sobre tatuagem as pessoas colocavam aquelas dúvidas de que se eu me arrependesse teria que conviver com aquilo, que doía demais, ou que eu poderia enjoar rápido, mas eu adorava ver pessoas tatuadas, achava lindo, e sempre foi algo que era absolutamente normal na minha cabeça até porque meus ídolos da música, principalmente rock, eram super tatuados. Assim não foi difícil me decidir a começar a fazer tattoos.
Todas as minhas tatuagens tem um significado para mim, e desde quando fiz a primeira me preocupei em colocar coisas com as quais eu me identificasse. Fiz minha primeira tatuagem grande no braço esquerdo, que é um leão. Na época não era muito comum mulheres com tatuagens grandes na região do bíceps e cheguei a ouvir de um amigo que eu deveria fazer nas costas, ou nas coxas pois no braço e grandona “era coisa de lésbica”.
Felizmente sempre trabalhei e atuei a vida toda com arte, em agências de propaganda, design, e mesmo há algumas décadas atrás, quando a tatuagem não era algo tão popularizado e ainda sofria o estigma de coisa de maluco, drogado, prostituta ou bandido, dentro do trabalho isso nunca foi visto como um problema, era a famosa frase “coisa de artista”. Tive apenas uma situação trabalhando com o marketing e em uma reunião em que iria receber junto ao cliente um grupo de japoneses que, sabendo como se dá a questão da tattoo na cultura e no Japão eu mesma decidi ir para a reunião com uma blusa de manga. Mas foi por um excesso de cuidado meu, ninguém me pediu para esconder as tattoos na época. Então posso dizer que na minha área de trabalho nunca atrapalhou.
Fico muito feliz em ver a popularização dessa arte. No começo era algo muito do universo dos roqueiros, rappers ou presidiários, mas a medida em que artistas do pop começaram a aparecer na mídia tatuados, depois um mundo de reality shows de estúdios de tattoo, mais a moda hipster que abraçou o lance da tattoo e hoje cantores de todos os estilos como o popular sertanejo, ídolos de futebol aparecem em massa com suas tatuagens a coisa se popularizou mais ainda. Estamos começando a criar uma cultura da tattoo. O que é muito bom porque desenhar no próprio corpo faz parte do ser humano desde os primórdios, é uma das nossas formas legítimas e genuínas de expressão desde sempre.
Espero que daqui mais alguns anos, ter ou não ter tatuagens seja algo tão comum quanto ter ou não cabelo curto. Liberdade para ser como quisermos isso é fundamental!”.
Ju Leidl, artista plástica, vocalista da banda Threesome, e jurada do programa “Canta Comigo” apresentado pelo Gugu Liberato, TV Record

Ju Leidl/ Reprodução instagram

“Fiz minhas tatuagens há 4 anos, e foi muito complicado, pois cresci numa igreja evangélica, e meus pais não me permitiam fazer tatuagens. Conversei com meus pais, expliquei meus motivos e convicções até que os convenci. Sempre gostei do rock, meus pais também gostavam, mas não tinham nada característico, nada de tatuagens ou piercings. Me formei em fonoaudiologia, porque queria muito trabalhar com música e voz profissional, mas acabei indo pelo caminho da audiologia, o que me levou à trabalhar numa maternidade. Enquanto ainda trabalhava lá fiz minha primeira tatuagem, que era na costela. Minha chefe comentou que havia achado legal, mas conforme foi passando o tempo e optei por fazer outras tatuagens, enquanto elas ainda eram escondidas, não tinha tanto problema. À partir do momento em que optei por fazer algo que fosse maior e mais exposto, sofri uma repreensão por parte da minha chefe. Ela me disse que eu tinha que cobrir. Fiquei em choque. Passei a trabalhar com roupas que cobriam minhas tatuagens, com o tempo resolvi não me preocupar mais com isso, escolhi ser uma pessoa tatuada e segui minha escolha sem maiores problemas”.
Letícia Lima, fonoaudióloga e blogueira.

Letícia Lima/ Foto acervo pessoal

“Não sei se o profissional do futuro será efetivamente um profissional tatuado. O que sei, é que hoje, as pessoas que tem vontade de fazer tatuagem, não se sentem intimidadas ou com o futuro de certa forma ameaçado por isso. Elas simplesmente escolhem suas tatuagens, e as fazem sem maiores problemas.
Fiz minha primeira tatuagem há mais de 20 anos e a minha mãe quase infartou à época. Não por um preconceito dela e sim por medo do preconceito dos outros. Hoje, esse estigma em muito já está ultrapassado. As pessoas que realmente grilam com tatuagem são, na maioria das vezes pessoas mais velhas, que ainda mantiveram o mesmo mindset de quando eram jovens. Acho que a grande quantidade de celebridades e profissionais de alto gabarito com tatuagem ajudaram e ajudam a desmistificar esse cultura.”
Marcelo Barbosa, guitarrista do Angra e professor no Instituto GTR

Marcelo Barbosa/ Reprodução Facebook

“Tenho 8 tatuagens, todas relacionadas à motivos de bandas das quais sou fã. As mais recentes são o símbolo da banda suíça Gotthard, e a capa do disco “Angels Cry” lançado em 1993 pela banda brasileira Angra. Acredito que a tatuagem é algo que já virou uma parte estética de todo ser humano, como um corte de cabelo por exemplo ou mudança de cor de cabelo. A tatuagem já foi muito motivo de preconceito no passado, agora é algo muito natural ao meu ver. É até de certa forma difícil achar alguém que não tenha”.
Anderson Bellini, vídeo maker

 

Anderson Bellini/ Reprodução Facebook

“Acredito que a tatuagem aos poucos está sendo descriminalizada e sendo vista como arte e não como algo relacionado a gangues, drogas etc. Por isso as pessoas procuram mais e os tatuadores se profissionalizam e com isso, melhores trabalhos e no final todos ganham.
No começo sofri alguns olhares de repreensão das pessoas, talvez por parte dos mais conservadores, mas nada que me preocupasse, nada que me atrapalhasse profissionalmente e nem socialmente.
Fiz tatuagens pois é algo que está muito ligado à tribo da qual faço parte, que é o rock. Cresci vendo meus ídolos com tatuagens e isso também me inspirou”.
Alex Romanosk, vocalista da banda Zed

Alex Romanosk/ Foto @fotos_marifontes

Por Isabele Miranda

Fonte: Economia – iG


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