ANGRA – DVD- 21-07-18 Cobertura Completa MMC

Angra – Tom Brasil – 21/07/18

Angra imortaliza sua ‘terceira nova era’ em DVD, pecando apenas no horário

E aí, você, bravo leitor que decidiu seguir pelo texto, mesmo com um título assim peculiar, merece saber de imediato o que deu errado: se o pacote ‘gravação de DVD’ demanda mais tempo do que um show convencional, chegando a durar três horas e vinte minutos, ele jamais poderia começar às 22:40 (com quarenta minutos de atraso) e terminar às 2:00, ainda mais com alguns ávidos fãs posicionados na fila desde antes das 19:30 (horário de nossa chegada), e entrando a partir das 20. Mesmo existindo alguma justificativa plausível para a demora (seja lá qual for: montagem do palco? A famosa ‘logística’? Espera pela chegada dos convidados?), essa foi a única pisada na bola do evento. Até porque os shows de rock e metal na cidade não seguem mais tal padrão de horário de encerramento, e também porque o Angra segue rejuvenescendo seu público, então havia muitos casais que contavam com o trem para voltar para casa, ou com mais linhas de ônibus (mesmo com linhas noturnas passando pelas cercanias). Alguém pode argumentar: “Mas hoje em dia tem Uber!”. Sim, é verdade, mas o cansaço físico afetou até os próprios músicos, tão humanos quanto os fãs.
Então, voltando a São Paulo após passagem pelo Carioca Club em 19 de maio, o que houve de bom, além do óbvio talento do quinteto? Todo o restante: o uso de ao menos oito câmeras, até onde era possível visualizar e contá-las (seis espalhadas pelo Tom Brasil e duas no palco); iluminação impecável; um telão gigante atrás da bateria cobrindo toda a extensão do palco; participações especiais; fãs pacientes dispostos a colaborar; e setlist inteligente, pois sabia-se que ØMNI seria tocado na íntegra, além das músicas selecionadas ‘by request’, pelos fãs no Facebook do conjunto. Primando pela qualidade do produto, devem ser relevados tanto os eventuais imprevistos que surgem e fazem parte de todo e qualquer show e são ‘apagados’ da versão final do DVD através de correções (Rafael foi honestíssimo ao citar que: “Dá pra fazer algumas mágicas no estúdio e depois consertar alguns errinhos: corta aqui, copia ali, fazendo muitos milagres”) quanto a repetição de algumas canções (Silence Inside teve duas interrupções, finalizada apenas na terceira tentativa, e Heroes Of Sand foi tocada duas vezes em seqüência). O saldo geral? Extremamente positivo!
Preservando as surpresas, uma cortina bloqueava a visão do palco, com a projeção do logo da banda sobre si, gerando expectativa. Vez ou outra, num ato de extremo bom humor, ouviam-se coros de “Sandy! Sandy”, vindos do fundo da pista. Com a demora, o looping de músicas do Iron Maiden (sem nenhum clássico) e do Black Sabbath (com alguns clássicos) rodou por pelo menos três vezes no som ambiente, traumatizando quem ouviu repetições de Judas Be My Guide e Never Say Die!. Com Rainbow In The Dark como intro, as luzes se apagaram, dando indícios de que o show finalmente estava para se iniciar. Abertas as cortinas, posicionado em seu kit de bateria, Bruno Valverde regia o público para a entrada de Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa (guitarras) e Felipe Andreoli (baixo), sob lindas luzes roxas, com som cristalino e público digno lotando a casa. Fabio Lione (vocais), o último a dar as caras, entrou perto dos primeiros versos de Newborn Me, evitando a óbvia tática de começar a noite com ØMNI. Ao seu término, o cantor deu as boas-vindas: “Boa noite, São Paulo! Tudo bem? Então, hoje a banda vai gravar um DVD com convidados e com vocês. Estão prontos?”. A seguinte seria Angels And Demons, exceto para Lione, que, ansioso, chamou por “uma música de 2001, do Rebirth, Running Alone”, intrigando seus colegas. Ao notar a gafe, o italiano entrou na brincadeira: “Como é?… Vocês sabem, estamos gravando. Vamos fazer de novo, tá bom? O que acham? Angels And Demons”, faixa em que os guitarristas simplesmente detonaram nos solos, sem o cantor no palco em sua parte instrumental. Fechando a trinca ‘by request’ inaugural, Running Alone foi, de fato, tocada, com os sons dos teclados usados como efeitos de fundo, sem a presença de um tecladista real.
Rafael então pediu a palavra: “Galera, e aí, como vocês estão? Muito bom! É o seguinte, este é um momento histórico para essa banda. Começa agora, o terceiro grande momento do Angra. Vocês fazem parte disso e nós estamos documentando em DVD. Não é um show convencional, e sim com algumas paradas e preparações. Peço a paciência de vocês. Pode ser que canse um pouco, mas vamos tentar manter a energia até o final. Agora, a gente vai começar a tocar o ØMNI na íntegra. Muito obrigado! Vocês não sabem como é gratificante vermos as músicas novas serem cantadas por vocês. Vamos fazer uma preparação rápida e já voltamos, hein? Vai ser o DVD mais do caralho da história desta banda e vocês estão aqui!”. Light Of Transcendence reabriu os trabalhos após oito minutos de pausa, agora com o palco decorado com dois discretos banners laterais com a arte da capa de ØMNI, que também podia ser vista nas peles dos bumbos de Bruno. Ao vivo, Travelers Of Time tornou-se ainda mais interessante (mesmo com um sutil deslize na levada inicial puxada por Rafael e Marcelo), e Fabio arregaçou em seus vocais, que contaram com o auxílio de Rafael cantando a estrofe que vai de ‘I have been sailing in a dream’ a ‘Let’s get moving on’.
E então, após novos gritos por Sandy, o único remanescente original do conjunto anunciou a participação da primeira convidada da noite: “Chegou a hora, galera! Eu até botei um blazer para receber uma figura ilustre, uma diva. Nós todos acompanhamos a trajetória desta musa, desta voz brasileira. Nós a vimos criança, menina, adolescente e hoje ela é uma grande mulher, uma artista completa, atriz e cantora. E é assim, com muita honra, alegria e gratidão ao universo, que a gente convida Sandy, a nossa mais querida viuvinha negra!”, em alusão a Black Widow’s Web, com seu clipe no telão. Aplaudidíssima, Sandy tornou-se a maior surpresa da noite, vestindo um belo figurino preto, cantando muito bem e provocando o erguer de um mar de celulares! A parte gutural de Alissa White-Gluz foi feita por Fabio, complementada por algum tipo de efeito nos vocais, no contraponto Fera x Bela, para a voz de Sandy, que, ao final da canção, agradeceu efusivamente pelo convite e o carinho de todos. E quando você pensa que já viu de tudo, ela saiu de cena fazendo os evil horns…
Seguindo a viagem por ØMNI, Insania trouxe destaque para o baixo de Felipe, logo de cara, e terminou com um “Ô, ôôô … ô, ô, ô, ô” tão intenso da platéia que forçou Fabio a pedir pela repetição do coro: “Agora eu quero mais um pedacinho desta música. Quero escutar vocês”. E enquanto novos ajustes eram feitos, após receber o carinho dos presentes que gritavam seu nome, o cantor resolveu interagir um pouco mais, ganhando tempo: “Estou muito feliz hoje de tocar aqui com a banda em São Paulo porque esta é a minha segunda cidade. Eu moro na Itália, em Pisa, mas São Paulo, de verdade, é a minha segunda casa. Gostei muito de vocês, da comida e da gente, é claro. Hoje vamos fazer o OMNI na íntegra, mas o mais importante, com certeza, são vocês. Porque uma banda não é nada sem os fãs e os fãs brasileiros, eu conosco (sic) de coração. Muito obrigado. Eu não sei por que a galera fala do Mago, do Mago Implacável, então eu acho que a magia, the magic is here, em São Paulo this night. Obrigado!”. E mesmo que Lione tenha soltado uma palavra em italiano e trechos em inglês, é de se elogiar sua capacidade de aprender o português e se expressar tão facilmente em nossa língua! Transcorridos mais dois minutos após o agradecimento, tudo permanecia parado. Foi a vez de Felipe dar o ar da graça: “E aí, São Paulo ? Como vocês podem perceber, uma gravação de DVD é cheia de muitos mais imprevistos do que em um show normal, porque o Murphy está entre nós. Enquanto isso, vocês se importariam se eu fizesse um solo de baixo?”. Sugestão prontamente aceita e que incluiu um trecho de Storm Of Emotions com ajuda da plateia. Ao encerrar seu solo improvisado e ter seu nome gritado, Felipe pediu: “Agora, esperem mais um pouco!”. Com Bruno sentado em seu kit, a galera imediatamente passou a gritar por ele, clamando por um solo de bateria. Educado, o músico sinalizou que faria um, mas mais tarde.
Dando prosseguimento aos micos, Rafael apresentou a próxima música como sendo “bastante importante para mim, bastante pessoal. Ela conta a estória de uma viagem ao fundo da minha alma”, dando o gancho para The Bottom Of My Soul. Teria sido lindo, mas como os ajustes não haviam terminado, e o guitarrista esbanjou sinceridade: “Acabou de acontecer mais uma merda também. Fodeu… recebi essa linda informação”. E uma versão improvisada de Caça E Caçador foi feita, só por ele, ao melhor estilo violão e voz. A galera nem ligou e curtiu o momento. Então, ainda nos vocais, Rafael finalmente conseguiu comandar The Bottom Of My Soul, como no álbum. O início de War Horns mostrou-se mais impressionante ao vivo do que na versão de estúdio e trouxe outra excelente performance vocal de Fabio, que apresentou a canção subsequente, Caveman, como “a mais brazuca do novo CD”, provando que a iluminação verde, azul e amarela (com sutis tons de vermelho), não era mero acaso. Suas partes em português foram cantadas por Rafael e Felipe, em backing vocals, e sua parte instrumental intermediária foi simplesmente fantástica.
Emendada a ela, Fabio antecipou o solo de bateria: “Agora, esse menino, na verdade, é um monstro, não é um baterista normal. Levantem as mãos para Mr. Bruno Valverde”. Ao seu término, enquanto os fãs calorosamente ovacionavam o baterista, Fabio apresentou os próximos convidados: “São Paulo, esta próxima música tem a participação, muito importante para a banda, da Família Lima”, deixando Rafael concluir: “Esses caras são uns dos melhores músicos do Brasil, grandes amigos, pessoas muito queridas. A Família Lima é também parte da Família Angra, então sejam bem-vindos. E espero que sempre de portas abertas para vocês: Amon, Lucas, Mo e Allen”, posicionados respectivamente para tocar violino, violino, violoncelo e teclados em Magic Mirror (lembrando que Lucas é casado com Sandy). Surpreendentemente, mesmo com tanta gente no palco, abriu-se espaço para mais uma destacada participação de Felipe em sua baixo de seis cordas. A parte instrumental da canção foi um assombro e a presença de mais quatro músicos encorpou ainda mais os arranjos. Com a manutenção de todos no palco, Fabio garantiu que esta seria a primeira vez de Always More na cidade, perguntou se todos estavam “cansadinhos”, e um lyric vídeo rolou no telão, com dois erros de legendagem que só o fã mais cri-cri teria notado: “There’ll”, e não “There’s”, em “There’s always more”, e a ausência do “to” em “There’s always a better word to say”.
Finalizando a saga do novo álbum, ØMNI – Silence Inside foi um capítulo à parte. Quase que como uma lei, foi prova cabal de que o que tem para dar errado em um show será ainda pior caso um artista deseje eternizá-lo em um DVD. Sem anúncio, Rafael puxou seu dedilhado inicial e o violão simplesmente caiu do suporte! Entrando no clima de desgraça, ele tirou onda: “Bom, a gente ensaiou esta parte da queda do violão, mas era para ele ter caído para o outro lado, então a gente vai ter que refazer… E graças a Deus eu trouxe outro violão, porque, esse aí, acho que já cagou de vez!”. O carismático Marcelo, dando o ar da graça pela primeira vez na noite, explicou: “Tem mais cinco desses aí, então podem cair mais quatro, tá?”. Quando finalmente trouxeram outro violão (ainda na caixa!) e tudo parecia seguir seu curso natural, incríveis dez minutos mais tarde, com Rafael interagindo com a plateia, que batia palmas ajudando a ditar o ritmo, nova catástrofe, agora no baixo de Felipe, que levantou os braços, pedindo para parar, sendo imediatamente atendido por Bruno, deixando Rafael sem entender coisa alguma. Em nova pausa, o guitarrista explicou que a música que estavam tentando tocar, além de ser uma das mais complexas de ØMNI, “é a música que mais representa a banda no momento, porque envolveu todos na composição e deu início ao álbum, pois nós começamos esta música durante a turnê da Tarja em 2016, no camarim, brincando e gravando. Essa é o cerne, o core do ØMNI, do ponto de vista musical e criativo”. Transcorridos quinze minutos após a tentativa inicial, com Rafael entretendo os fãs durante todo o intervalo, ØMNI – Silence Inside vingou e encerrou ØMNI, o álbum, agora sem maiores intercorrências!
Como o show não podia parar, Fabio resolveu fazer um dueto vocal com o público, ao melhor estilo Freddie Mercury em Wembley. Mais um momento de ajuste de equipamentos? Perto de uma da manhã, alguns fãs começavam a acusar o golpe… Na retomada do ‘by request’, como a bruxa já estava solta, Spread Your Fire também apresentou um sutil erro logo em seu início, forçando a banda a recomeçá-la. Começando apenas com vocal, baixo e bateria, Ego Painted Grey (a única de Aurora Consurgens do set) foi a próxima. Ao apresentar a seguinte, Rafael explicou aos desavisados como estava funcionando a parte final do setlist: “As mais votadas deste tópico feito no Facebook são as que a gente está tocando aqui. E uma delas é uma música muito bonita, do Rebirth, que já ganhou até um apelido: Heroes Of Sandy”, em trocadilho com a convidada, novamente convocada, para um lindíssimo par com o vocalista italiano. Por motivos desconhecidos, ela foi tocada de novo, sem queixa alguma de quem curtia a participação especial de Sandy. Upper Levels encerrou as faixas de Secret Garden na noite, agora somente com a banda no palco, e Carolina IV foi o único registro de Holy Land no espetáculo (como curiosidade, desconsiderando-se o EP Freedom Call, os únicos álbuns não representados no set foram Angels Cry, Fireworks e Aqua).
Após a banda deixar o palco e retornar, Rafael fez o último pronunciamento: “Galera, agora vamos fazer nosso suposto bis e é o seguinte: este é o terceiro grande momento na história do Angra. Tivemos uma formação clássica no começo, substituída por uma nova grande formação, que também deixou sua marca, seu legado e sua história, e agora começa a consolidação do terceiro grande momento desta banda, o momento ØMNI. Foram vinte e sete anos de luta, de batalha, e não é fácil ser uma banda de heavy metal no Brasil, com representação mundial. Então quero agradecer a algumas pessoas, porque, você até pode ganhar uma luta mano a mano, mas as grandes batalhas, as grandes guerras, você vence coletivamente. Quero agradecer a todos os ex-membros do grupo, que ajudaram a construir o que nós temos aqui hoje”, e o reconhecimento se estendeu aos fãs. Antes de Rebirth, Rafael fez emocionante apresentação, pedindo salvas de palmas o “jovem gênio da batera” Bruno Valverde; o “garoto prodígio de dezoito anos atrás e monstro do baixo” Felipe Andreoli; o “mais recente membro da Família Angra, o achado, o totem sagrado” Marcelo Barbosa; e o “cara que caminhou o mundo inteiro representando o metal, um dos maiores tenores e vocalistas do metal, o Mago” Fabio Lione. Para encerrar a noite, Rafael convidou a Família Lima pela última vez, chamando o conjunto de Angra-Lima e Família Angra-Lima antes de Nova Era.
Com ØMNI – Infinite Nothing ao fundo, os músicos se despediram dos persistentes fãs, ainda com crédito (descontando-se o supracitado adiantado da hora). Resta a curiosidade em saber quais faixas de ØMNI resistirão ao teste do tempo para integrar tanto os shows vindouros da atual ØMNI World Tour, quanto os das próximas turnês, integrando-as de modo definitivo (em Curitiba, na véspera, também tocaram ØMNI por inteiro; e em Jaguariúna, no dia seguinte, tocaram Caveman, Light Of Transcendence, Insania, Black Widow’s Web e Magic Mirror), torcendo para tudo começar mais cedo…

Setist
Rainbow In The Dark (Dio) [Utilizada Como Intro]
01) Newborn Me
02) Angels And Demons
03) Running Alone
04) Light Of Transcendence
05) Travelers Of Time
06) Black Widow’s Web [Participação De Sandy]
07) Insania
08) Solo De Baixo – Felipe Andreoli [Com Trecho De Storm Of Emotions]
09) Caça E Caçador [Improviso Solo De Rafael Bittencourt Nos Vocais]
10) The Bottom Of My Soul [Com Rafael Bittencourt Nos Vocais]
11) War Horns
12) Caveman
13) Solo De Bateria – Bruno Valverde
14) Magic Mirror [Participação Da Família Lima]
15) Always More [Participação Da Família Lima]
16) ØMNI – Silence Inside
17) Spread Your Fire
18) Ego Painted Grey
19) Heroes Of Sand [Participação De Sandy]
20) Heroes Of Sand [Replay] [Participação De Sandy]
21) Upper Levels
22) Carolina IV
23) Rebirth
24) Nova Era [Participação da Família Lima]
ØMNI – Infinite Nothing [Utilizada Como Outro]

Texto: Vagner Mastropaulo
Fotos: Marta Ayora


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