“A Nona Hora do Sonata Arctica”

Na Bíblia, a nona hora é a hora de dor, sofrimento e morte. Tony Kakko e sua Sonata Arctica sabiam disso ao conceituar seu mais recente álbum- não coincidentemente, o nono – “The Ninth Hour”. A capa primorosamente trabalhada, ilustra que o paralelo bíblico buscado pela banda tem o viés da sustentabilidade ambiental no atual momento de desenvolvimento tecnológico da humanidade: um equilíbrio decisivo, cuja menor perturbação comprometerá irremediavelmente um dos lados. Não tão figuradamente assim, os finlandeses de Kemi também parecem estar passando por mais um divisor de águas em sua já longeva carreira no Power Metal : “The Ninth Hour” é outro daqueles álbuns que ousam romper com alguns paradigmas do estilo. E isso geralmente acende uma certa polêmica entre os fãs. “Closer to An Animal” como faixa de abertura presta-se bem como “preview” do que irá se desenvolver ao longo da pouco mais de uma hora de duração do álbum. Os riffs iniciais e as notas de teclado remetem aos clássicos timbres que consagraram a Sonata Arctica, mas o refrão entrega algo diferente, como uma releitura dessa própria nostalgia. Reza a lenda que “Life” foi a primeira música do álbum a ser trabalhada – e também a última. Com uma pegada bem “trilha sonora de novela das oito”, tem cara mesmo de faixa de trabalho. Foi também a primeira música a ganhar um vídeo (tão meigo quanto ela). Tudo carimbado com o autêntico “Selo Sonata Arctica” de meiguice. O.K: pessoalmente, não gostei de “Fairytale”. Claramente inspirada na última eleição dos Estados Unidos, a letra traz uma abordagem tão rasinha, numa letra tão mediana, que nem o trabalho musical razoavelmente bem elaborado consegue salvar a faixa ao meus ouvidos. Já “We Are What We Are” ganhou minha atenção na mesma hora, com aquela introdução estilosa. Da primeira vez que ouvi aquilo, pensei : “Não parece Sonata Arctica de jeito nenhum, mas é maravilhoso!”. Aquele clima florestal, quase indígena, foi uma incrível e agradável surpresa. Soube vir direitinho de encontro à letra profundamente melancólica, interpretada em belíssimos arranjos vocais. Se vier no setlist da turnê brasileira em Maio, é bem aí que o rímel começa a escorrer… “Till Death’s Done Us Apart” é outra track que os fãs das antigas não têm muito o que reclamar. Novamente aquele power bem assinadinho, com as letras de sofrência e tudo. Sonata até a medula. Tanto que a expressão “bleed for me”, bem destacada, apunhalou meu coração com a lembrança de “My Selene”, música do épico álbum “Reckoning Night” (2004). A canção, composta pelo ex-membro e fundador da Sonata Arctica, Jani Liimatainen, hoje faz parte de seu repertório acústico ao lado de Timo Kotipelto (Stratovarius). “Among The Shooting Stars” engrossa o rol das peças que denunciam a escorregada “pop” do estilo Sonata (com lobos e tudo). “Rise A Night”: agora sim, dá pra reconhecer a banda que compôs “Full Moon” em toda sua glória original. A playlist “pulou” de novo? Não: é “Fly, Navigate,Communicate”. Outra pérola inovativa no cardápio. Com uma alegada inspiração no Devin Townsend Project, a música realmente é rápida e agressiva como o próprio Kakko já a descreveu. Mas, de boa: novamente, não tem nada a ver com o que os fãs dos clássicos poderiam esperar. Minha recomendação? Deixe-se surpreender..! Basta correr os olhos em qualquer fórum de discussão ou comentários nos sites de notícias sobre a banda, que dá pra notar os fãs divididos entre os que amaram e os que odiaram a segunda parte de “White Pearl, Black Oceans” – hit monumental do já citado “Reckoning Night”. Em “Part II: By The Grace Of The Ocean”, temos a continuação da triste história do homem do farol e sua noite fatídica. Um trabalho que merece ser analisado e julgado individualmente por cada fã: qualquer resenha aqui seria subjetiva demais. “Candle Laws” deve ser o trabalho mais fofo dessa empreitada, derramando “bromance”. Dizem que a letra é sobre uma criança descrevendo um cemitério, mas eu insisto que a interpretação de uma música é sempre algo muito subjetivo. Entendo que predominou o tom de celebração das memórias de uma bela amizade. A parte instrumental é digna de ilustrar um casamento (noivinhos do metal, fica a dica!). Ainda estou tentando entender “On The Faultline (Closure to an animal)”. Talvez a impressão cansativa seja porque ela é um tiquinho longa demais. O piano acústico é bonitinho, e é bem característico da banda fazer “intros”, e “outros”, continuações e músicas que “falam” entre si. Mas acho que tenho de concordar com alguns fãs, que descrevem a faixa como “canção de ninar”. O que pra alguns não chega a ser um ponto negativo. Enfim, subjetividade parece ser ainda o melhor critério para se avaliar “The Ninth Hour”. É difícil até mesmo compará-lo com os anteriores mais recentes, e deixa bem clara a intenção da banda de não se limitar ao óbvio, sem perder sua identidade. Se este novo rumo agrada ou desagrada, cada ouvinte é quem vai decidir. A nona hora bíblica também é sobre superação, vitória e livramento: aplicando este entendimento no próprio aspecto musical da obra, talvez “The Ninth Hour” venha para coroar a virada definitiva da Sonata Arctica.

Por Rosa Moraes 04 de Abril de 2016 – 1:53 AM


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