Myrath – Legacy (2016) – uma feliz surpresa no mundo do metal

A banda Myrath é daquelas que você só conhece em duas situações: ou se está ouvindo algo aleatoriamente no YouTube e – de repente – deixa uma banda diferente tocar sem passar rapidamente par não ouvir a novidade; ou se você começa a procurar umas tags diferentes no Google, do tipo: metal, banda, música árabe, progressivo etc. Bem, há mais um jeito que eu não comentei: se você tiver aquele amigo que sempre descobre alguma coisa na Internet e fica incomodando até você colocar o som para ouvir. No caso, eu serei esse amigo agora!

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Para encurtar fazer uma pequena apresentação da banda: os caras são de Ez-zahra, Tunísia e começaram suas atividades em 2001 (época em que se chamavam X-Tazy). Há um lance de misturar metal progressivo com música tradicional árabe – entretanto, não soa estranho aos ouvidos. Na realidade, a mistura tem um blend tão bem definido que você não enjoa de ouvir. Claro, isso se você considerar os últimos álbuns – principalmente depois da entrada do vocalista Zaher Zorgati em 2007. Aliás, espero que esse cara cante por muito tempo ainda, porque ele é simplesmente sensacional – ouso comparar sua qualidade vocal e tessitura a um dos caras que, para mim, mais representam versatilidade e técnica – o Roy Khan (ex-vocalista do Kamelot, atual não se sabe o quê, porque o cara sumiu).

Vamos à pauta desse artigo: o álbum que o Myrath lançou no ano de 2016. O título já é uma tradução do nome da banda – Legacy – e, pelo visto, vai se tornar um legado para o mundo do metal progressivo (assim como o Pyramaze fez quando gravou um álbum com o Matthew Barlow).

O álbum todo é muito coeso: você não vê um abismo de uma música para outra no sentido de identidade da banda: os riffs são bastante pegados e criativos, o que combina muito bem com a paulada que é a bateria – muito coesa e com uns grooves muito bem realizados. A qualidade técnica da banda é impecável, diga-se de passagem. Há um trabalho muito bem feito pelo tecladista da banda – ele cria umas atmosferas nas canções que conseguem transportar o ouvinte diretamente para o deserto (tema predileto da banda). Apesar de bastante virtuosas, não se nota uma sobreposição das guitarras em relação ao resto da banda, por isso falei que acho o álbum bastante coeso. Os vocais não são exagerados e revelam grande capacidade de interpretação do vocalista. Difícil é tentar cantar as músicas se você não souber, ao menos, um pouco da língua dos caras (sim, eles colocam umas passagens em árabe – nos coros – o que deixa tudo ainda mais interessante).

Vamos falar de cada faixa dessa obra-prima:

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1 – Jasmin: uma passagem instrumental, em que a banda começa a revelar o que está por vir – muitos instrumentos particulares da cultura árabe soando nessa rica introdução, valorosa tanto quanto curta.

2 – Believer: sou bem suspeito para falar dessa faixa, pois foi ela que me fez ficar viciado no Myrath. Ela começa no ponto em que a Jasmin acaba e apresenta uma porrada nos primeiros versos compassados e fortes. Destaque para a melodia que compõe a música como um todo e é apresentada nos violinos; para o solo da música (um primor de composição); e para a altura dos tons que o vocalista alcança gravando os backing vocals (principalmente no último refrão).

3 – Get Your Freedom Back: inicia com um belo riff de guitarra, que vai se desdobrando para os instrumentos ingressarem pouco a pouco. Pausa na música! Voz com efeito faz o prelúdio do que será apresentado. Quando chega a música na cara mesmo, é um festival de dobradas de voz, contratempos e um refrão matador! O pessoal faz uma espécie de jam no meio da música com o baixo e com a batera!

4 – Nobody’s Lives: introdução bastante marcante pela melodia do teclado e pela pancadaria na batera. Muita atenção para a habilidade de fazer um refrão inteiro cantado em árabe ficar bom demais! Aliás, há muita coisa cantada em árabe nessa música. Solo muito bem escrito!

5 – The needle: título bastante sugestivo para uma música sobre o efeito dos narcóticos – uma letra bastante crítica. Marcha para a introdução (cuja bateria lembra, de longe, uns acentos de Painkiller), vai progredindo e ficando mais pesada até interromper (uma fórmula já utilizada em outra canção, mas não chega a enjoar) para que a voz entre e dê a cara da música. Aí você começa a pensar: tem algo de Symphony X no meio disso tudo.

6 – Through Your Eyes: introdução épica. Apesar disso, acho que é a canção mais fraca do álbum. Digo isso, pois é a que menos consegue traduzir a identidade da banda. Mesmo assim, ainda é uma ótima música.

7 – The Unburnt: o que dizer de uma música sobre a mãe dos dragões? Pois é, se você criou expectativas com esse tema, deve ir correndo ouvir essa faixa! Há muita influência do Symphony X nessa música. Riff pesadão, vocais destruidores – uma construção singular! Você vai ficar com a última frase da música na cabeça por um bom tempo:

8 – I want to die: feeling no talo para compor essa música. Melódica na medida, traz um refrão marcante com diversos elementos que revelam muito do que a banda ainda tem a oferecer.

9 – Duat: minha música predileta do álbum. O tema é a travessia do mundo dos mortos na mitologia egípcia. Começa com uma voz derramada numa arranjo belíssimo de piano. Segue para um crescendo que parece infinito – que culmina em um dos refrães (sim, esse é o plural da palavra “refrão) mais belos que já ouvi na vida.  Destaque para o trabalho do vocalista nessa música: é pura entrega! E o que ele faz no verso em que canta “inside my mind” é simplesmente insano.

10 – Endure the Silence: introdução que caberia em qualquer gênero música e se volta para um metal inusitado mesmo. Destaque para o fator “progressivo” dessa canção. Isso me fez repensar a ideia de metal progressivo.

11 – Storm of lies: riff animal na introdução, progressão muito cadente, com belas dobradas de voz. Refrão marcante, dá vontade de cantar! Esses caras são muito bons!

12: Other side (bônus track): de fato, é um bônus mesmo! Algo que vem para somar. Apesar do refrão um pouco enjoativo, em razão do eco que as vogais cantadas em melismas árabes provocam. Destaque para o trabalho do tecladista nessa música e para o baterista, que parece ter uns quatro braços para fazer tanta coisa numa música.

Em suma, esse álbum é uma peça magnífica! É uma obra de arte! Vale a pena ouvir, ouvir de novo, ouvir mais uma vez até captar todas as nuances que as músicas contêm (que não são poucas, diga-se de passagem). Tenho certeza de que – se essa banda ganhar o ocidente – teremos ótimas surpresas futuramente. Tomara que ganhem!

 

Pablo Jamilk


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